domingo, 10 de setembro de 2017

DENTES QUE CAEM E PERNAS QUE CRESCEM DEMAIS

os anos escorreram por entre meus
dedos calejados e o riso largo plantou
bananeira em meu semblante
os olhos gigantes curiosos encerraram o
expediente um par de horas antes pois
amanhã é feriado e as pernas estão cansadas
demais para o próximo passo que não
sei qual é nem qual rumo toma o que ascende
uma tocha debaixo da colmeia de vespas que habita
as entranhas de quem vos fala num dia de inverno
em que por razão desconhecida decidiu rever
fotografias da época dos dentes cor de
leite que não mais carregam significado na
memória

ÉROTIQUE

Aqueles que abrem as portas mais
fechadas pela moral e pelos bons
costumes expressam as mais
belas e sinceras formas de
arte (antes de morrerem de
alcoolismo
sífilis
ou se submeterem às leis
divinas).

PASSAGEIRO

O ato de fazer e desfazer
as malas nunca
é de fácil execução.
Entregamo-nos de bandeja à
obrigação de rever os
altos das prateleiras:
os convites de formatura
as cartas de amor
as fotos de um outro
tempo – fosse ele de alegria ou
tristeza.
O olhar para o passado é tão
apavorante o quanto a incerteza do
futuro.
Sinto o passado como uma
neblina que toca minha
face suavamente e embaça
meus olhos como as
lágrimas que um dia
chorei ao
partir e as outras tantas que
chorei enquanto permanecia.
...
Com outro suspiro cuja
duração não pude
conscientemente acompanhar
encerro a lírica
me desfaço de algumas roupas velhas
e, mais uma vez, guardo
os convites, as cartas, as fotos
nas mais altas prateleiras.

DESPEDIDA

A saudade prematura transborda 
dentro de mim enquanto a 
gratidão de um passado
recente acalenta o frio de um
inverno que acabou
de começar: me perco em
meio a uma NUVEM DE LÁGRIMAS.
Se a partida dói e parece cruel,
é seguro afirmar que a estadia
foi uma aventura fantástica
e preferível acreditar que
é hora do fim.
Da cidade
levo a lembrança gelada
das ruas e avenidas
e das trilhas em meio a um Jardim
Botânico.
Dos amigos
carrego com carinho suas
peculiaridades, bordões
e os bons momentos vividos
intensamente
nessa cidade russo-brasileira
chamada Curitiba.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

VINIL QUEBRADO

PARTE I

a adrenalina
entranhada
no desconhecido
a excitação
do primeiro
toque
o descobrir
da pele
o êxtase
da língua
molhada

a porta abriu
o telefone tocou
o beijo acabou: afogado em culpa

PARTE II

O espírito carnavalesco
em descompasso com o calendário:
as datas comemorativas
dificilmente acompanham
os sentidos do corpo
humano.
Descidas de ladeira
pilares de viadutos
ressaca dos olhares
uma cama de solteiro
desarrumada.
Bêbados arruaceiros
dançam ao som vermelho
de Caetano Veloso...
Enquanto o cotidiano
carregou nas costas
o riso de um bêbado,
a folia dos carnavais
levou consigo
as migalhas
do outro pobre
embriagado.

PARTE III

a poesia frouxa
encontrou certezas
alheias
e dissimulou
concordar
pois queria os
adjetivos difíceis
riscando suas
folhas de papel
em branco

um oceano de cabelos
escuros como o universo
deve ser durante a
noite invadiu meu
quarto quando eu estava
com frio e chovia lá fora
citando Drummond e outros
autores que eu não gostava
naqueles dias recitou meia
dúzia de poesias e uma dúzia de
problemas vislumbrou minha
figura e eu questionei meu
reflexo

entregou páginas
amareladas envoltas por couro
preto ao espírito torto do
poeta boêmio e depois cruzou
o oceano de águas azuis

PARTE IV

no topo de uma pilha de
sujeira e arrependimentos
eu te via bater as asas em
círculos mas você decidiu fazer uma

faxina

quinta-feira, 4 de maio de 2017

VERÃO

O verão acabou.
As margaridas,
outrora coloridas,
floresciam por entre
as rochas dos jardins.
Os pássaros
cantavam hinos - “ia ia ô”,
as borboletas
sobrevoavam nossas
cabeças
e, juntos, tirávamos
os pés do chão.
Perto
ou longe
eu ouvia sua
risada e partilhava
sua alegria;
seu colo foi
meu consolo
ao fim da
primavera.
Foi num domingo
nebuloso
que o verão se encerrou.
A notícia voou
e refez
os passos e caminhos
tomados por você
em dias ensolarados de verão.
Hoje as nuvens choram
os pássaros não cantam
as borboletas dormem
nossos pés se grudam ao
chão como raízes profundas
de uma árvore centenária:
saudosa e amargurada.
É dia de colher
as margaridas.

Outono:
as folhas
secas se abraçam,
todas no chão,
e resistem
ao vento
frio que
sopra.
Em Belo Horizonte,
Cuiabá
e outras cidades
- que não couberam
na poesia,
foi anunciado
um rigoroso
inverno.
Se este verão
chega ao fim
com a ausência
do seu
toque,
o poeta,
desolado,
encerra
a poesia com
a nota:
seu riso gostoso,
seu coração gigante,
sua presença quente
estarão sempre
presentes
onde seus passos,
um dia,

estiveram.

sábado, 18 de março de 2017

LÍNGUA PORTUGUESA

minha palavra favorita
é AVÓS
veja bem! só depois de velhas
nos tornamos
o "gênero predominante"