quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O elixir da depravação

Perante as luzes foscas e coloridas que predominam durante o fim de noite, sejam elas vindas da chama de um isqueiro ou de um poste castigado pelo tempo, então refletidas na água turva de cor repugnante acumulada entre a calçada e o asfalto esburacado da rua, já sem forças para escoar para o bueiro mais próximo, tropeçam os bêbados que com frequência não vêem algum relevo em seu trajeto e esganiçam as mulheres já transfiguradas pela idade e profissão.
Alguns carros bonitos passam depressa, como uma breve ilustração ao cenário. Eles não querem ser parte daquele ambiente deteriorado, portanto... fogem. As "crianças" mais destemidas também costumam andar por ali, como uma aventura de fim de noite. Vão às gargalhadas, com copos vazios nas mãos e cigarros misteriosos entre os dedos finos. Simulam ser parte da sujeira local, mais uns poucos habitantes, mas bem sei que se amedrontam a cada sirene policial que toca ao fundo, soando como o sax em seu solo num jazz conhecido. Também não tardam a sumir de vista.
Alguns cães vadios se recostam nas portas de aço do comércio adormecido, pois já estão cansados de perseguir gatos, motos e até mesmo pessoas que enfim nada lhes têm a oferecer. Os gatos, agora em tranquilidade, perambulam pelos becos mais próximos e reviram todo o tipo de lixo a fim de encontrar algo digerível. Também há um grupo afastado que mia horas a fio na presença de uma fêmea no cio. Não são agradáveis, mas os transeuntes já se acostumaram àquele som terrivelmente irritante.
Alguns homens mal encarados e de aparência suspeita dão voltas no quarteirão com as mãos enterradas nos bolsos das jaquetas. Não é preciso especificar o que fazem ali... Mesmo que as respostas sejam diversas, são previsíveis.
Finalmente, o sol surge preguiçoso no horizonte. Aquele lugar não é o seu favorito, ele é generosamente estúpido pra gostar de depravação.

2 comentários:

Jéssica disse...

Você é muito profunda, fico de cara ! hsuahsuahsuashau
até que ficou legalzinho ! (:

Filipe de Paiva disse...

Adoro esses textos sobre decadência e com uma visão negativa do cotidiano. =*