sexta-feira, 17 de março de 2017

WALK ON THE WILD SIDE

Minha poesia é catarse.
Traqueostomia.
Dentro de mim vive uma criatura monstruosa
e sussurra ao pé do meu ouvido
as ideias mais assustadoras.
Mecanicamente,
a mão traduz
o que a boca,
por orgulho,
se recusa dizer.

MELANCOLIA

a batalha diária
da pílula
rosada
versus garganta
seca
da lágrima
e da retina
do berro
e das cordas
vocais

o mundo
externo perfura
a alma como uma
adaga
derrama seu
veneno
na corrente sanguínea
e a boca
alheia
estanca o
sangramento

intoxicado
o mundo
interno arranha
as paredes da caixa
torácica
procura no escuro
por si mesmo
e não
se encontra
posto que já
não se

reconhece

sábado, 11 de fevereiro de 2017

YOGA

Ela acorda, religiosamente, às 7:00. Certa vez a bateria do celular acabou durante a noite e, mesmo sem o alarme do despertador, ela acordou às 7:00. Em ponto. Creio que não pelo hábito, mas sim por uma compulsão pela rotina estabelecida há treze anos e meio atrás, às margens dos seus vinte e tantos anos de idade. Ela entra no banheiro e deixa a porta entreaberta. Liga o chuveiro e espera a água esquentar: ela sabe que a observo. Se veste e toma o café preto, forte, sem açucar. Então sai para o trabalho e, às 12:30, recebo notícias suas. Me manda uma mensagem perguntando qualquer coisa: que horas chego em casa? Se faço a janta ou se ela deve fazer? Respondo de prontidão e logo retomamos os afazeres. Chego em casa por volta das 18:00. Não é anormal que ela chegue depois de mim: ela passa por avenidas onde o tráfego é denso, ao passo que eu trabalho num bairro próximo. Ela chega, jantamos e nos arrumamos para deitar. Vez ou outra transamos.
O que os vizinhos, os amigos, os familiares não sabem é que nas segundas e quartas, depois do trabalho, ela vai à yoga. Ela diz que vai à yoga. Mas EU sei que ela não vai à yoga. No próximo mês completam dois anos que ela começou a frequentar as aulas de yoga e meditação. Dois anos que ela o encaixou em sua rotina. Eu não o conheço. Ele trabalha com ela. Também é casado. Ele tem uma filha. 3 anos. Já o vi, à distância. Bem apessoado. Por raro descuido dela, conheço seu cheiro.
Diferente dela, eu não tenho rotina definida. Não acordo às 7:00 em ponto, não bebo café sem açucar, não vou à yoga. Às quintas, depois do expediente, eu vou ao bar com os colegas de trabalho. Nem sempre vou ao bar com os colegas. No entanto, é o que digo a ela. Uma vez por mês eu vou ao bar sozinho. E saio acompanhado. Eu sempre volto pra ela. Ela não cheira meu paletó. Ela também não me cheira às quintas de noite.  Diz que é em razão do cheiro de bebida. Mas eu sei que não é. Ela também sabe.

Anos atrás, quando ela não frequentava a yoga às segundas e quartas e eu o bar às quintas, ela não deixava a porta do banheiro entreaberta. Ela não mandava a mensagem às 12:30. Nós nunca transávamos. Eu não lembrava qual era o cheiro dela.

terça-feira, 21 de junho de 2016

JALAPEÑOS

Sentada no ônibus, no lugar da janela. Olho a rua, olho os carros, os pedestres: não sinto. Não sinto cheiros, não sinto gostos, não ouço os ruídos da rua, do ônibus ou das pessoas. Não sinto meu nariz, não sinto minha boca, não consigo mexer minhas mãos e meus pés. Me acomete uma dormência: nenhum dos meus sentidos parece funcionar. Sinto meu corpo, meu cérebro formigar. No peito carrego um buraco do tamanho do mundo, não consigo enxergar o fim. Tudo é escuro e vazio. Minhas entranhas se contorcem. Um desconforto descabido. O ar é pesado, a luz é mais clara que o normal e incomoda meus olhos. Tenho vontade de chorar: chorar já não consigo. Quero gritar "SOCORRO!": já não tenho voz. Quero levantar do ônibus e fugir: minhas pernas já não são mais minhas. Tudo o que é exterior a mim continua o mesmo: eu já não pertenço mais. Meus pensamentos começam a borbulhar, desconexos. Penso nos afetos: são rasos. Sequer os mereço. Penso nas minhas conquistas: inexistentes. Penso no futuro: já não tenho fantasia ou expectativa. Penso no meu reflexo no espelho: odeio o que vejo. Penso nas cartelas de remédio dentro da minha gaveta. Penso no desfecho. Estorvo. O ônibus pára. É meu ponto. Desço e finjo que nada aconteceu.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

A CONCEPÇÃO DO TEMPO

E assim, nasceu.
Não se sabe quando,
mas foi descrito e definido
por algum “homem”
- como todas as outras coisas da natureza,
que sempre estiveram por aí,
sem gana ou pretensão,
e acabaram virando tema de dissertação.
Tempo pode ser bonito
o tempo das fotografias,
da rosa murcha,
do pôr-do-sol.
Tempo pode ser aterrorizante!
tempo do futuro,
do sol nascente,
da lua nova.
Tempo pode ser ingrato...
e quanta gente luta contra o tempo
sem saber que o tempo não entra em guerra de malfadado.
Tempo é algo curioso
pois veja: se o ano tem 365 dias
e o dia 24 horas
e a hora 60 minutos
e o minuto 60 segundos
e isso é imutável,

que tempo é esse que passa pra você e não passa pra mim?

segunda-feira, 6 de junho de 2016

DESALENTO

Os melhores anos da minha vida
Eu já não me lembro mais
Minhas saudades são antigas
Meus laços, desfeitos
Apodreço
Como uma maçã
De dentro para fora

quinta-feira, 2 de junho de 2016

EPOPEIA

Decifra-me ou devoro-te!
- disse a Esfinge.
Corpo majestoso de leão
Asas inquietas
Olhos famulentos.
Não tenho o corpo de um leão.
Menino! Hoje tu és meu cardápio inteiro
No café, os teus cabelos
O almoço, tua língua
Não janto! Petisco avidamente a noite toda.
No entanto, é preciso cautela:
Tu és meio Medusa.
Um inocente relance, de súbito,
Transforma-me em pedra
- Bem sabes
Parte de mim já é rocha.
Menino! Tem pena de mim.
Romance inusitado
Entre Medusa e Esfinge:
Sejamos nós dois as nossas adversidades.
Matas Édipo antes que mate meu orgulho
Decapito Perseu antes que, sequer, cogite derrotar o titã.

Secretamente,
Devoro-te antes que me decifre.