segunda-feira, 2 de abril de 2018

com todo o respeito aos que falam sobre o
Sol e as estrelas e a Lua e a formação das
pedras sobre pedras e até sobre os grandes
répteis e pequenos anfíbios e sobre o
que eu nem lembro que comi no almoço de
ontem ainda que eu tenha ouvido meia
dúzia de palavras furadas e que a letra
‘B’ seja a mais furada entre todas as
letras de música que eu tenho
ouvido quando me pego pensando nos
acontecimentos dos últimos vinte e
três (quase quatro) anos de amores
magros e poesias sem métrica porque todos
sabem eu não sei rimar já dizia um poeta
amigo de curta data que a rima é
superestimada enquanto rabiscava sem
esforço algum uma coluna de vocábulos juntos
somavam poesias tão lindas que
eu ainda não tinha lido e palavras difíceis e citações
que eu nunca entendi porque meu tórax sempre
esteve cheio de nada e minha conta
bancária está no negativo há algumas
semanas eu gastei tempo demais mastigando um
sofrimento que ainda não consegui
digerir
Um desses sonhos
importantes que a
gente esquece e quando
fecha os olhos parece
que vai lembrar: de
relance vê a silhueta
embaçada escuta uma
voz conhecida ou
sente uma fisgada na
boca do estômago... de
repente você vira tenta
tocar a lembrança e
o sonho some
que nem fumaça.

AUTO RETRATO

Tatuei no tempo uma
Pincelada amarela uma
Lágrima em branco faltou
Tinta para uma orelha um
Sorriso eu escondi o
Retrato de ontem ficou
Diferente da figura na
Tela de hoje.
não adianta pedir bor-
racha se a vida escreve a
caneta

domingo, 10 de setembro de 2017

DENTES QUE CAEM E PERNAS QUE CRESCEM DEMAIS

os anos escorreram por entre meus
dedos calejados e o riso largo plantou
bananeira em meu semblante
os olhos gigantes curiosos encerraram o
expediente um par de horas antes pois
amanhã é feriado e as pernas estão cansadas
demais para o próximo passo que não
sei qual é nem qual rumo toma o que ascende
uma tocha debaixo da colmeia de vespas que habita
as entranhas de quem vos fala num dia de inverno
em que por razão desconhecida decidiu rever
fotografias da época dos dentes cor de
leite que não mais carregam significado na
memória

ÉROTIQUE

Aqueles que abrem as portas mais
fechadas pela moral e pelos bons
costumes expressam as mais
belas e sinceras formas de
arte (antes de morrerem de
alcoolismo
sífilis
ou se submeterem às leis
divinas).

PASSAGEIRO

O ato de fazer e desfazer
as malas nunca
é de fácil execução.
Entregamo-nos de bandeja à
obrigação de rever os
altos das prateleiras:
os convites de formatura
as cartas de amor
as fotos de um outro
tempo – fosse ele de alegria ou
tristeza.
O olhar para o passado é tão
apavorante o quanto a incerteza do
futuro.
Sinto o passado como uma
neblina que toca minha
face suavamente e embaça
meus olhos como as
lágrimas que um dia
chorei ao
partir e as outras tantas que
chorei enquanto permanecia.
...
Com outro suspiro cuja
duração não pude
conscientemente acompanhar
encerro a lírica
me desfaço de algumas roupas velhas
e, mais uma vez, guardo
os convites, as cartas, as fotos
nas mais altas prateleiras.