Oitavo
andar. Esquina com a Avenida do Contorno, rua movimentada da capital. Zona Sul,
onde ninguém se importa com quem atravessa a rua, com quem está na rua, com quem
VIVE na rua. Importante é a marca da roupa que você usa e a maquiagem que você
coloca na cara de manhã pra cobrir toda infelicidade e insegurança. Não sei bem como começou, tão menos como acabei ali, mas
lá estava eu: encarando a janela do oitavo andar. A semana mal havia começado e
eu não conseguia tirar da cabeça a tal janela. Lembro dos livros espalhados na
mesa e da obrigação empilhada na minha cabeça... Acima de tudo, lembro da
solidão. Lembro de abrir a janela e sentir o vento soprar contra o meu rosto.
Lembro de olhar pra baixo e imaginar... Só entende quem já olhou pra janela e
encontrou a solução para todos os seus problemas. Ahh minha janelinha no oitavo
andar. Outro dia
passei por lá. Recordei
meus maus bocados, lembrei do fim que minha história ainda não teve.
O pai sempre foi criativo Espancava com mangueira Cabide e correia Quando virou moça Saiu de casa Casou, e casou de novo Criou filho sem pai Seguindo a velha lei da maternidade: Quem pôs no mundo foi tu! Ontem chegou ao meu conhecimento Foi morar na vila: Favela não! Tem até energia elétrica E água encanada
- Esse poema é a reprodução de uma conversa que ouvi em um salão entre uma manicure, sua colega de trabalho e uma cliente.